"A morte mata mais do que se pensa. Os mortos levam quase tudo com eles. Diz-se que deixam lembranças e saudades, mas é tudo um truque — açambarcam as lembranças e só deixam o lixo, as saudades. É terrível termos saudades sem nos podermos lembrar. Cada vez precisamos de nos lembrarmos de mais, mas cedo degeneramos e começamos a esquecer e a inventar. Por justiça cada saudade deveria ter a respectiva lembrança, como cada som tem a sua origem. Quando alguém morre ou se deita uma casa abaixo, a vontade de vê-la ou de viver nela continua de pé, mas, distante delas, só existe um buraco. Um buraco que um dia nem buraco será; onde nem sequer se poderá cair."
— O Amor é Fodido, Miguel Esteves Cardoso